sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Auto da Brasilândia

Esta é  humilde paródia da passagem mais conhecida do Auto da Lusitânia, de Gil Vicente. Lá, os personagens são “Todo Mundo” e “Ninguém”; os narradores, Belzebu e Dinato. Aqui, os personagens são “Cumpanhêro” e “Alguém”; os narradores, emprestados de C S Lewis (Cartas de um diabo ao seu aprendiz), são Vermebile e Sombroso. Tentei manter o mesmo padrão de sílabas métricas  e a mesma posição rítmica que ele usou nas estrofes.


Entra “Cumpanhêro”, barba “a la Fidel”, com uma estrela vermelha na testa e, sorrateiramente, faz que está procurando alguma coisa; e logo após ele, entra Alguém.

A – Que procuras, camarada?
C – Riquezas procuro eu,
       mas não aquelas do Céu,
       que nisso não levo nada.
       E quero o que não é meu.
A - Tens um nome, delinqüente?
C - Chamam-me de “Cumpanhêro”
      e tenho ocupada a mente
      em viver hediondamente
      mentindo pro mundo inteiro.

A - A mim me chamam Alguém,
      procuro sempre a verdade.
V - Diabos! Que barbaridade!
      Sombroso, guarda isso bem.
S - Que guardo, mestre indecente?
V - Que Alguém procura a verdade
       e “Cumpanhêro” só mente.

A - E que mais andas querendo?
C - Quero ser bem poderoso.
A - Eu, apenas virtuoso
      e em Deus continuar vivendo.
V - Sombroso, mais atitude,
      escreve isso aí ligeiro:
      Quer o poder, “Cumpanhêro”
      e Alguém só pensa em virtude.

A - Tens algum outro interesse?
C - Dinheiro... poder... vanglória!
      E tudo o que for benesse.
A - E eu, se assim merecesse,
      ter-me Deus em sua memória.
V - Sombroso!
S -                  Qual o recado?
V - A fogo grave as mensagens:
      Quer “Cumpanhêro” vantagens
      e Alguém por Deus ser lembrado.

A - O que mais hás de querer?
C - Prazer que nunca termina.
A - A minha alma se anima
      à procura do saber.
V - Ponha com categoria.
S - Que ponho?
V -            Quer, com certeza,
      “Cumpanhêro” futileza
      e Alguém sabedoria.

C - Desejo mais, liberar
      o aborto e a maconha
A - Eu, pagar pela vergonha
      se contra não for lutar.
V - Anota sem divagar.
S - Que anoto?
V -           Sobre essa tara:
      “Cumpanhêro” quer matar
      e Alguém colocar a cara.

C - Também de herança deixar
       o ideal comunista.
A - Eu, seguir somente a pista
      que Jesus Cristo indicar.
V - Sombroso, mão no tinteiro.
S - Vermebile, qual o dito?
V - É “Cumpanhêro” um maldito
      e Alguém é barro do Oleiro.

A - Que outra coisa?
C -                   Corromper.
A - Eu permanecer honrado.
V - Marque lá, mal afamado.
S - Que marco? Por Lúcifer!
V - A última! Acaba a festa:
      Da marca, exposta à luz,
     Alguém traz a de Jesus
     e “Cumpanhêro” a da Besta.