Esta é humilde paródia da passagem mais conhecida do Auto da Lusitânia, de Gil Vicente. Lá, os personagens são “Todo Mundo” e “Ninguém”; os narradores, Belzebu e Dinato. Aqui, os personagens são “Cumpanhêro” e “Alguém”; os narradores, emprestados de C S Lewis (Cartas de um diabo ao seu aprendiz), são Vermebile e Sombroso. Mantive o mesmo padrão de sílabas métricas e a mesma posição rítmica que ele usou nas estrofes.
Entra “Cumpanhêro”, barba “a la Fidel”, com uma estrela vermelha na testa e, sorrateiramente, faz que está procurando alguma coisa; e logo após ele, entra Alguém.
A – Que procuras, camarada?
C – Riquezas procuro eu,
mas não aquelas do Céu,
que nisso não levo nada.
E quero o que não é meu.
A - Tens um nome, delinqüente?
C - Chamam-me de “Cumpanhêro”
e tenho ocupada a mente
em viver hediondamente
mentindo pro mundo inteiro.
A - A mim me chamam Alguém,
procuro sempre a verdade.
V - Diabos! Que barbaridade!
Sombroso, guarda isso bem.
S - Que guardo, mestre indecente?
V - Que Alguém procura a verdade
e “Cumpanhêro” só mente.
A - E que mais andas querendo?
C - Quero ser bem poderoso.
A - Eu, apenas virtuoso
e em Deus continuar vivendo.
V - Sombroso, mais atitude,
escreve isso aí ligeiro:
Quer o poder, “Cumpanhêro”
e Alguém só pensa em virtude.
A - Tens algum outro interesse?
C - Dinheiro... poder... vanglória!
E tudo o que for benesse.
A - E eu, se assim merecesse,
ter-me Deus em sua memória.
V - Sombroso!
S - Qual o recado?
V - A fogo grave as mensagens:
Quer “Cumpanhêro” vantagens
e Alguém por Deus ser lembrado.
A - O que mais hás de querer?
C - Prazer que nunca termina.
A - A minha alma se anima
à procura do saber.
V - Ponha com categoria.
S - Que ponho?
V - Quer, com certeza,
“Cumpanhêro” futileza
e Alguém sabedoria.
C - Desejo mais, liberar
o aborto e a maconha
A - Eu, pagar pela vergonha
se contra não for lutar.
V - Anota sem divagar.
S - Que anoto?
V - Sobre essa tara:
“Cumpanhêro” quer matar
e Alguém colocar a cara.
C - Também de herança deixar
o ideal comunista.
A - Eu, seguir somente a pista
que Jesus Cristo indicar.
V - Sombroso, mão no tinteiro.
S - Vermebile, qual o dito?
V - É “Cumpanhêro” um maldito
e Alguém é barro do Oleiro.
A - Que outra coisa?
C - Corromper.
A - Eu permanecer honrado.
V - Marque lá, mal afamado.
S - Que marco? Por Lúcifer!
V - A última! Acaba a festa:
Da marca, exposta à luz,
Alguém traz a de Jesus
e “Cumpanhêro” a da besta.