Não se fie na pessoa
Pelo discurso somente
Além do dito eloqüente
Veja como se comporta
Tem gente de vida torta
Que solta mel pela boca
Fala bonito e invoca
Provérbios e citações
Mas no frigir das razões
O engenho vira engenhoca
Sua lábia é como minhoca
No anzol que nos oferece
Nunca é o que parece
Parecer é vestimenta
Daquele que só argumenta
Para esconder sua ignorância
Fingindo ter abundância
Onde há carecimento
Reforçando o argumento
Com disfarçada arrogância
Vivendo nessa alternância
De tamanha variedade
Vai insuflando a vaidade
Posando de requintado
Pensando que é magistrado
Anda emitindo sentenças
No julgamento de avenças
Sobre coisas não sabidas
Muito menos entendidas
No exame das diferenças
Cucuricando suas crenças
Opina a torto e a direito
Teórico satisfeito
Simula mas não reflete
Na cópia apenas repete
Da imitação se
alimenta
Quando a ocasião se apresenta
Para que a prática adote
O galo vira frangote
Logo da rinha se ausenta.
Na pose sempre se assenta
Do conteúdo se afasta
A verdade lhe desgasta
Ter que pensar lhe atormenta
Vive na zona cinzenta
Não é branco nem é preto
Aceita qualquer decreto
Sem entender a intenção
E se perde na abstração
Quando o assunto é concreto
Ao se passar por discreto
Guardião do bom-mocismo
Pratica o pior cinismo
Achando que está correto
Quem nunca fala direto
E não se opõe à inverdade
Acobertando a maldade
Para não contrariar
Preferindo concordar
Com qualquer barbaridade
Por isso ter amizade
Com quem tem essa postura
É coisa de pouca altura
Para quem preza a verdade
A tal da fraternidade
Não se constrói na ilusão
E não lhes peço perdão
Porque o perdão é divino
Do hipócrita e do ladino
Prefiro a condenação.
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